HOLOFOTE - O Nascimento de Uma Nação

Por Rafael


Em meio as recentes polêmicas envolvendo o Oscar e o racismo, parece conveniente e talvez necessário, retomar a primeira grande produção estadunidense: O Nascimento de uma Nação, de 1915, dirigido por D. W. Griffith. O filme foi uma revolução no cinema, inovou técnicas de filmagem, deu proporções épicas a um filme, foi o mais lucrativo de sua época e reinventou a narrativa cinematográfica.

O Filme mudo com mais de três horas pode parecer um desafio, mas depois de alguns minutos acabamos imersos naquele estilo e nos envolvemos com aquela atmosfera, o que comprova o incrível trabalho feito neste longa, capaz de prender a atenção do telespectador 101 anos após seu lançamento. Como telespectador contemporâneo fui levado a uma mistura de sentimentos, me senti próximo e ao mesmo tempo distante daquela forma de cinema, às vezes admirando as “sacadas” do filme e às vezes contemplando o bizarro, há certo conflito entre simpatia e aversão.


A despeito de toda a contribuição que o O Nascimento de uma Nação deu ao cinema, o que chama a atenção é o conteúdo extremamente racista. Retratando os negros como subumanos, criaturas bestiais e desprovidas de inteligência, enquanto os mestiços surgem como os vilões mais perigosos, pois estes mesclariam a inteligência do homem branco à dissimulação dos negros. Para agravar ainda mais o problema, é negado aos negros o direito de se representarem, sendo atores brancos pintados atuando.

O primeiro ato do filme retrata a história de duas famílias durante a Guerra de Secessão. Nesta primeira parte apesar de o preconceito já ser nítido, a história foca mais nas famílias e os dilemas amorosos. Creio que esta passagem é o que torna possível nos envolvermos com a história do filme. A segunda parte apresenta a reconstrução, onde os negros ao ganharem direitos e serem integrados a sociedade estadunidense começam a oprimir os brancos. Eis que “nosso herói”, Ben Cameron, funda a Ku Klux Klan para salvar os brancos... Está parte do filme deixa um gosto amargo, um sentimento de repulsa, comtemplamos nossos valores morais sendo traídos por vilões transfigurados de heróis.


Determinados a convencer o público que a trama narrada no filme retratava com precisão os fatos históricos, foram adicionadas “notas históricas” e cenas que retratavam passagens da história estadunidense conhecidas pelo público em geral, como a morte do presidente Lincoln. Este cuidado surtiu efeito, o filme é considerado um dos fatores responsáveis pelo ressurgimento da Ku Klux Klan na Geórgia (O Nascimento de uma Nação foi usado pela Ku Klux Klan como ferramenta de recrutamento até meados da década de 1970). Desta forma, mostrando a influência que o cinema tem sobre a sociedade.

Nesta crítica anacrônica, concluímos que o tempo apenas enriqueceu O Nascimento de uma Nação, de um filme épico com apelo nacionalista transformou-se em uma obra cerebral, na qual somos provocados a refletir sobre racismo, nacionalismo, sobre o impacto do cinema na sociedade, sobre história, sobre a indústria cinematográfica atual, dentre tantas outras possibilidades. É incrível como um filme com 101 anos pode nos horrorizar, quando percebemos que há apenas 101 anos este filme foi muito conveniente para os EUA. Observamos como uma época pode naturalizar preconceitos, ao ponto de para muitos não haver absurdo nenhum em O Nascimento de uma Nação. A história não é mestra da vida, mas ela pode dar uns toques, e assim eu dato esta crítica: #OscarsSoWhite.


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